Como todos vocês devem saber, eu sofro de narcolepsia.
E como todo bom ser-humano que sofre de alguma coisa eu resolví não sofrer sozinho, e saí em busca de um grupo de apoio.
Foi quando encontrei a NCA, Narcolépticos Anônimos. Deveria ser NA, mas parece que essa sigla já havia sido tomada por algum outro grupo de pessoas.
O pessoal lá sempre me tratou super bem, todos muito prestativos, ajudando uns aos outros... Nossas reuniões eram sempre muito proveitosas.
Até que um dia nosso local de encontro mudou e o lugar, por ser um lugar com uma iluminação um tanto quanto precária, acabou virando um clube de stand up comedy.
Só esqueceram de me avisar.
Interessante por que justamente no dia que seria a nossa reunião, estava havendo uma noite de open mic no club de stand up, o que explica minha confusão.
Quando eu cheguei, a disposição das cadeiras estava mudada, haviam espalhado mesas pelo salão e no lugar do palanque havia só um microfone com uma parede de tijolos ao fundo.
Cheguei e me assentei, como sempre, esperando a minha vez.
Foi quando um carinha subiu ao microfone e convidou aquele que quisesse ser o próximo a subir ao palco.
Olhei para os lados, ninguém queria subir, eu subí!
Como de costume eu começei a contar minha história, e, como de costume, eu tinha mini-ataques de sono entre os parágrafos. A única coisa que não foi como de costume foi a reação do pessoal ao final do meu discurso.
Ao invés de estarem pesarosos e tristes de uma maneira apoiadora, eles estavam rindo e aplaudindo.
Foi assim que eu virei um comediante.
Um homem que estava no salão aquela noite acabou me convencendo a voltar todas as noites de terça e contar minha atribulada vida para o pessoal.
Eu bem queria ter recusado, odeio quem rí dos problemas dos outros, mas ele elogiou tanto o meu timing que eu acabei aceitando.
Afinal de contas, ninguém nunca havia elogiado o meu timing antes; seja lá o que isso for.
- Sabe meu bem, desde que eu era uma menininha que eu sonhava em ser uma princesa!
- ...
- Morar em um castelo, usar lindos vestidos, lindos sapatos, ter serviçais...
- ...
- Mas acima de tudo eu sonhava com um príncipe! Um lindo e charmoso príncipe com uma armadura reluzente, um cavalo branco, cabelos esvoaçantes, bonito, simpático, gentil... enfim, um nobre!
- ...
- ...
- Tudo bem meu bem, eu prometo que não solto mais nenhum!
- Sabe, eu acho super bacana aqueles filmes de ficção científica onde o planeta enfreta sua destruição iminente e poucos e nobres seres-humanos lutam até as ultimas forças para que a humanindade não seja exterminada da face da terra.
- ...
- Sabe no que eu me ligo mais ainda?! Aqueles aparatos eletrônicos que eles têm escondido a vida toda e só revelam no final do filme, tipo uma arma secreta, ou uma bomba super poderosa.
- ...
- É interessante por que o que sempre dispara essa arma é um botão vermelho!
- ...
- O botão vermelho parece até o protagonista nesses filmes. Todos o tratam com todo cuidado; à ele toda a atenção. Geralmente ele está protegido por uma caixinha inquebrável que só pode ser aberta mediante a um código super secreto e/ou o movimento sincronizado de duas chaves que giram para conceder o acesso à ele. Fora isso, ele é intocável!
- Eu disse pra você ficar longe do botão vermelho!
- Foi sem querer!
- Descongelou toda a geladeira!
- ...
- Não sei o que eu faço!
- ...
- ...
- Eu ainda acho que o botão deveria ficar mais protegido!
- Meu bem, você sabia que o café aprimora a memória recente e acelera os reflexos?
- ...
- É, a cafeína modula uma função superior do cérebro em distintas áreas!
- ...
- Sem contar que o impacto a longo prazo do uso da cafeína também precisa ser considerado. A cafeína é conhecida por sua influência sobre os receptores de adenosina, encontrados por todo o cérebro nas células nervosas e nos vasos sangüíneos. Muitos acreditam que a cafeína iniba esses receptores, excitando os neurônios.